Festa de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos: ‘Quando a onça comeu a noite’

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A festa mais importante da Chapada Diamantina, a Festa de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos já tem o registro especial provisório de Patrimônio Imaterial da Bahia, concedido pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural do Estado da Bahia, e reivindica o registro também no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Iphan.

Quando a cada ano, na tarde do dia 23 de janeiro, começa a lavagem da escadaria do Santuário do Senhor do Passos, a população de Lençóis, na Chapada Diamantina, é contagiada por uma energia que reúne tradição, devoção e fé.

Assim iniciam, com muita alegria, as comemorações da Festa de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos, padroeiro dos garimpeiros, que seguem até o dia 02 de fevereiro. Neste ano, a lavagem da escadaria teve um ingrediente especial para irrigar o inconsciente coletivo do povo do Sertão: a chuva. A população foi tomada por um tipo de êxtase generalizado.

O apogeu da festa é no dia 02 de fevereiro. É o dia da procissão. A imagem do Senhor dos Passos, na intimidade para os devotos, sai do Santuário e vai hospedar-se na Igreja do Rosário, que já hospeda a imagem da padroeira de Lençóis Nossa Senhora da Conceição.

Desde as primeiras horas do dia, as vassouras são colocadas, lado a lado, na balaustrada diante do Santuário. As pessoas vão passando e deixam o nome escrito no ombro do escovão, para garantir a presença na lavagem.

O sincretismo domina os principais atos religiosos, com predominância do Jarê, religião afro-brasileira exclusiva de quatro municípios da Chapada Diamantina: Lençóis, Palmeiras, Andaraí e Itaetê. A lavagem vira uma festa. Primeiro, as mulheres despejam água, sabão e muita alegria. Os homens chegam logo, para terminar o serviço.

Durante os festejos, a Phylarmônica Lyra Popular de Lençóis toca na missa noturna, circula pelo centro histórico e toca na alvorada do dia seguinte, exceto quando “a onça comeu a noite”. Essa expressão indica que os noiteiros, o grupo de pessoas homenageadas na missa daquela noite, não conseguiram arrecadar os recursos suficientes para pagar os músicos da Lyra.

Já foi feita uma solicitação ao Iphan para registro da Festa do Senhor dos Passos como Patrimônio Imaterial Nacional. O Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural do Estado da Bahia, Ipac, já concedeu o registro especial provisório e aguarda a conclusão do monitoramento técnico para a conceder o registro definitivo como Patrimônio Imaterial do Estado da Bahia.

A festa é realizada todos anos, de 23 de janeiro a 02 de fevereiro, desde 1852, quando chegou a imagem do Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos, em escala humana natural, vinda de Portugal.

Duas paróquias, a de Cachoeira e a de Lençóis, haviam encomendado a artistas portugueses estátuas do santo e ambas vieram no mesmo navio. A de Cachoeira, por ser uma paróquia mais rica, encomendou a estátua maior e a de Lençóis, outra mais modesta.

No momento da entrega houve um equívoco e a imagem que seria de Cachoeira, veio para Lençóis por embarcação, quando o rio Paraguaçu e o rio Santo Antônio – que corta o município de Lençóis – eram navegáveis.

A estátua foi recebida pelos garimpeiros no ancoradouro, que havia no local onde fica o atual distrito de Tanquinho, a 20 km da sede do município. Quando a paróquia de Cachoeira percebeu a troca, houve um protesto, mas os garimpeiros recusaram a devolução e a bela imagem do Senhor dos Passos permanece na paróquia de Lençóis há 168 anos. Imagino que se houvesse a possibilidade de consultar o santo, ele certamente escolheria permanecer em Lençóis.

Reginaldo Marinho – Fotos: Túlio Saraiva e Reginaldo Marinho