Memorial da Irmã Dulce recebe a visita de mais de 15 mil pessoas por mês, em Salvador (BA)

Brasil

Será que a emoção é capaz de transformar qualquer movimento em efeito sugestivo? Ou a fé faz com que a gente possa acreditar que tudo é possível nessa vida? Durante um famtrip promovido pelo Salvador Destionation com jornalistas da Paraíba, São Paulo, Pernambuco e Minas Gerais, o grupo visitou o Memorial Irmã Dulce, espaço de celebração e dedicado à vida e obra da freira baiana que foi consagrada pela Igreja Católica como Santa Dulce dos Pobres em 13 de outubro de 2019.

O Memorial, localizado no Largo de Roma, em Salvador (BA), foi inaugurado em 1993, um ano após a morte da religiosa, e nele é possível conhecer e testemunhar momentos da vida da Santa que, natural de uma família da classe alta, decidiu servir aos mais pobres, principalmente aqueles que moravam na rua, sem assistência, sem atenção, jogados como se fossem apenas entulhos humanos nas vias da cidade.

No Memorial, as pessoas podem fazer uma visitação guiada que dura cerca de 60 minutos. No percurso, é possível se emocionar, se questionar e, sobretudo, acreditar que a fé move montanhas. No local, há passagens que contam a vida da santa na infância, adolescência e nos momentos em que, do nada, em um galinheiro, ela tornou aquele espaço em um centro de acolhimento e esperança para centenas de pessoas em situação de risco. Com fé e empreendedorismo, Irmã Dulce moveu o mundo em prol dos mais pobres e conseguiu salvar milhares e deixar um legado que continua na sua força espiritual, agora.

Na visita guiada, havia um grupo de sete freiras de uma congregação do interior da Bahia. Assim que o guia fez as despedidas, dentro de uma pequena capela onde a santa orava todos os dias e onde o corpo dela está enterrado, uma delas pediu a palavra, para surpresa de muitos. Muito emocionada, revelou que sentia a presença da Irmã Dulce durante todos aqueles momentos e que, ao pedir ajuda para guiá-la para conseguir recursos financeiros para uma obra que estavam construindo, sentiu um peso na bolsa que carregava e ouviu a voz da santa: “Aqui está o dinheiro que você precisa para a sua obra”.

Houve um momento de silêncio e minha reflexão. Afinal, o que representava esse sinal dado pela santa à freira? Ficou no semblante das pessoas uma mistura de emoção e incredulidade. Quem ousaria dizer que a freira estaria mentindo nesse momento? O que se pode crer, é que a Irmã Dulce continua mais do que nunca presente nas vidas de quem têm fé, não importa a religião ou crença. Deus é um só e a obra da santa está à disposição de quem quer experimentar esses momentos únicos de fé e paixão ao próximo.

A visita ao Memorial é totalmente grátis e, conforme a coordenação, cerca de 500 pessoas visitam o local todos os dias. São mais de 15 mil pessoas de todos os lugares do Brasil e até estrangeiros que procuram conhecer mais de perto a obra da religiosa no mês. Certamente, a maioria sai diferente, melhor espiritualmente e preparada para buscar novos horizontes, talvez, buscando a partir de então compreender os mais necessitados, entender o legado da Irmã Dulce que, ao passar privacidade com os seus protegidos, conseguiu erguer uma estrutura que poucos acreditavam que ela seria capaz.

Em um dos ambientes do Memorial da Irmã Dulce, há objetos de artesanato que narram alguns momentos da santa. Um deles, contado pelo guia, dá conta de que uma pessoa teria chegado na casa da irmã pedindo comida para os pobres que estavam com fome. Irmã Dulce então teria se isolado, ajoelhado para conversar com o Santo Antônio, que era um de seus protetores. Na conversa, ela pediu interferência do santo para conseguir alimentos e matar a fome daqueles desafortunados. Pouco tempo depois, uma pessoa bate na porte, entra e diz à santa que vinha de um casamento fracassado e que queria doar a comida da festa, o que foi feito. A Irmã Dulce teria ficado indignada com Santo Antônio que, para alimentar aqueles pobres, trouxe infelicidade de um casal. Poucos anos depois se soube que a moça que foi deixada no altar teria casado, vivendo feliz com o marido. O Santo Antônio, por ironia, é conhecido como Santo casamenteiro.

Uma placa exposta no Memorial da Irmã Dulce resume parte de sua trajetória. Com dados de 2024, mais de três milhões foram atendidas na Bahia; foram mais de quatro milhões de atendimentos ambulatoriais e de graça; 59 mil internamentos; 142 mil atendimentos a pessoas com deficiência; 720 leitos no Complexo de Roma; 1.828 leitos incluindo as unidades irmãs. 

Irmã Dulce foi consagrada santa em 13 de outubro de 2019, pelo Papa Francisco, no Vaticano. Ela se tornou a primeira santa brasileira, conhecida por suas obras de caridade e assistência aos pobres e necessitados, especialmente em Salvador, na Bahia. Antes disso, ela foi beatificada em 22 de maio de 2011, pelo enviado especial do Papa Bento XVI, Dom Geraldo Majella Agnelo 

Centro de assistência social

O Complexo Roma, também conhecido como Obras Sociais Irmã Dulce (OSID), é um centro de assistência social e de saúde localizado. Fundado pela Irmã Dulce, o complexo é fruto de sua trajetória de amor e serviço aos pobres e necessitados.

Sobre o Complexo

O Complexo Roma tem uma área construída de 40 mil metros quadrados e abriga 20 dos 21 núcleos da OSID, incluindo:
Hospital Santo Antônio: um dos principais hospitais da Bahia, com atendimento de alta complexidade
Hospital da Criança: oferece assistência médico-hospitalar humanizada para crianças e adolescentes
Centro Geriátrico: atendimento especializado para idosos
Unidade de Alta Complexidade em Oncologia: tratamento de câncer
Centro de Acolhimento à Pessoa com Deficiência: apoio e assistência para pessoas com deficiência
Centro Especializado em Reabilitação: reabilitação física e ocupacional

Serviços e Atendimentos

O Complexo Roma oferece uma variedade de serviços e atendimentos, incluindo: 
Atendimento ambulatorial: mais de 3,5 milhões de procedimentos por ano
Internação: 954 leitos hospitalares para atendimento de patologias clínicas e cirúrgicas;
Cirurgias: mais de 12 mil cirurgias realizadas anualmente
Tratamento de câncer: atendimento especializado para pacientes com câncer
Educação: Centro Educacional Santo Antônio (CESA) oferece ensino fundamental e profissionalizante para crianças e adolescentes

Importância e Reconhecimento
O Complexo Roma é reconhecido por sua importância social e de saúde no estado da Bahia, atendendo diariamente cerca de 2 mil pessoas, em sua maioria usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). A OSID é considerada uma das maiores e mais respeitadas instituições filantrópicas do país.

Irmã Dulce dormia sentada por causa de uma promessa que fez em 1955, quando sua irmã Dulcinha enfrentou uma gravidez de risco e ela pediu a Deus que ambas sobrevivessem. A promessa foi cumprida fielmente por trinta anos, até que, em 1985, devido à sua saúde debilitada por problemas como um enfisema pulmonar, ela foi convencida por médicos e familiares a voltar a dormir em uma cama para evitar que sua condição piorasse.

Irmã Dulce foi reconhecida por dois milagres que contribuíram para sua beatificação e canonização:

Primeiro Milagre: Sobrevivência da Parturiente
Um dos milagres atribuídos a Irmã Dulce foi a sobrevivência de Cláudia Cristiane dos Santos, uma mulher sergipana que deu à luz em 2001 e sofreu uma grave hemorragia. Mesmo após três cirurgias, ela não respondia ao tratamento. Com a intercessão de Irmã Dulce, a hemorragia parou de forma inexplicável, levando à sua rápida recuperação. Esse milagre foi reconhecido pelo Vaticano em 2003 e utilizado para a beatificação de Irmã Dulce em 2011.

Segundo Milagre: Cura da Cegueira
O segundo milagre ocorreu em 2014, quando um homem baiano que havia perdido a visão devido a um glaucoma severo recuperou a visão após clamar pela intercessão de Irmã Dulce. Apesar de exames que indicavam lesões irreversíveis, o homem voltou a enxergar normalmente. Esse milagre foi reconhecido pelo Vaticano e levou à canonização de Irmã Dulce em 2019.

O que visitar:
Exposição Permanente: o memorial abriga mais de 800 peças que contam a história de Irmã Dulce, incluindo objetos pessoais, fotografias e documentos.
Quarto de Irmã Dulce: o quarto da freira foi preservado e está aberto à visitação, mostrando a cama, escrivaninha e prêmios que ela guardava.
Capela das Relíquias: localizada no Santuário da Bem-Aventurada Dulce dos Pobres, a capela guarda os restos mortais da santa.
Santuário Santa Dulce dos Pobres: uma igreja com capacidade para mais de 1.000 pessoas, onde é possível participar de missas e encontrar suporte espiritual.
Dulce Café: um espaço gastronômico que oferece opções variadas e produtos locais.
Loja de Lembranças: vende itens como imagens, medalhas, terços e outros objetos relacionados à santa.
Mensagem que impacta as pessoas que visitam o Memorial da Irmã Dulce. Dura e real situação vividas pelos mais pobres em Salvador naquela época e que foram acolhidos pela santa.
O escritor e romancista Paulo Coelho é uma das muitas pessoas ajudadas pela Irmã Dulce. Paulo, com 18 anos e morando em Salvador, fugiu de um hospital psiquiátrico, em 1967, e foi ao encontro da santa para pedir ajuda. Esperou em uma fila e pediu dinheiro para comprar as passagens para retornar ao Rio de Janeiro. Conforme o guia que acompanhava o grupo, a irmã teria dito que ali não tinha dinheiro, mas que ele retornasse no outro dia que veria o que fazer. Paulo retornou e recebeu um bilhete da santa, que dizia: “Esses 2 rapazes um transporte grátis até o Rio. Ir Dulce, 27/07/67”. O funcionário da empresa, assim que leu o bilhete, providenciou as passagens e teria dito que jamais iria deixar de atender a Irmã Dulce. 
Informações práticas:
Endereço: Av. Dendezeiros do Bonfim, 161 – Bonfim, Salvador – BA
Horário de funcionamento: terça a domingo, das 10h às 17h
Entrada: gratuita
Fábio Cardoso – Texto e fotos – Pesquisa: sites sobre a Irmã Dulce