Viajar na terceira idade deixou de ser exceção. O Brasil tem mais de 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a cerca de 15,8% da população, segundo dados do Censo 2022 do IBGE. Esse público também já representa cerca de 15% dos turistas no país, de acordo com o Ministério do Turismo.
Mas, enquanto a população envelhece e viaja mais, boa parte da cadeia turística ainda não está preparada para receber esse viajante com segurança. Hotéis sem barras de apoio, banheiros escorregadios, escadas sem corrimão adequado, iluminação insuficiente, pisos irregulares, ausência de cadeiras em áreas de espera e passeios com longas caminhadas sem planejamento podem transformar uma viagem de lazer em um episódio de dor, queda ou fratura.
Para o ortopedista Lafayette Lage, especialista em quadril e joelho, o tema precisa deixar de ser tratado apenas como conforto e passar a ser visto como prevenção. “Quando falamos de turismo para a terceira idade, não estamos falando apenas de acessibilidade para cadeirantes. Estamos falando de mobilidade, equilíbrio, dor articular, risco de queda e autonomia. Um hotel pode ser bonito, mas se não for seguro para o idoso, ele não está preparado”, afirma.
As quedas estão entre os principais riscos para pessoas mais velhas. A Organização Mundial da Saúde aponta que adultos acima de 60 anos sofrem o maior número de quedas fatais, e estima que 37,3 milhões de quedas graves o suficiente para exigir atendimento médico ocorram todos os anos no mundo.
Segundo Lage, o problema é que muitos destinos ainda pensam no turista idoso de forma genérica, sem considerar limitações comuns da idade, como artrose, rigidez no quadril, dor no joelho, perda de massa muscular, menor equilíbrio e dificuldade para subir escadas. “Há idosos ativos, independentes e muito dispostos a viajar. Mas isso não elimina a necessidade de cuidado. Pelo contrário: preservar essa independência exige ambientes preparados para reduzir riscos”, explica.
Entre as medidas consideradas essenciais estão quartos com fácil acesso, banheiros com barras de apoio, piso antiderrapante, boa iluminação, elevadores funcionais, cardápios sem a necessidade do QR code, letras maiores, corrimãos, transporte adequado, pausas durante passeios, informação clara sobre nível de esforço das atividades e treinamento das equipes de hotelaria e turismo.
Para o médico, o setor turístico brasileiro precisa enxergar o público 60+ como um mercado estratégico – e não apenas como um grupo que exige adaptações. “Preparar hotéis, receptivos e roteiros para o idoso é uma decisão de responsabilidade, mas também de inteligência comercial. O turista 60+ viaja, consome, busca experiências e quer manter sua autonomia. Cabe ao setor oferecer segurança para que ele continue fazendo isso”, diz.
Lage defende ainda que hotéis e operadoras adotem protocolos simples de prevenção, como avaliação dos pontos de risco, orientação das equipes, sinalização adequada e comunicação transparente com o hóspede antes da reserva. “O objetivo não é limitar o idoso. É permitir que ele viaje melhor, com menos medo, menos dor e mais independência. Turismo seguro também é saúde”, conclui.
Lafayette Lage é médico ortopedista, especialista em cirurgia do quadril e do joelho, com mais de 40 anos de experiência. Pioneiro da artroscopia do quadril no Brasil, introduziu a técnica no país em 1993 e tornou-se referência em cirurgia preservadora do quadril, próteses de alta performance e medicina esportiva. Formado pela Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), é mestre em Ortopedia pelo Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da USP (IOT-HCFMUSP) e especialista em Medicina Desportiva pela UNIFESP. Ao longo da carreira, participou da formação de especialistas, publicou trabalhos científicos e integra importantes entidades médicas nacionais e internacionais. À frente da Clínica Lage – Medicina de Ponta, em São Paulo, dedica-se ao tratamento de patologias ortopédicas de alta complexidade, aliando inovação, excelência técnica e atendimento individualizado.
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