Não-violência – A profecia necessária de Dom José Maria Pires

Paraíba

Dom José Maria Pires – que o Senhor o receba – durante as longas décadas de 1970 e 80 pregava na Paraíba a não-violência em seus sermões e escritos, num Brasil relativamente pacífico, ainda que convivendo com conflitos agrários sem-fim. Como bispo cristão pedia paz, mas na luta recorria sempre a Mahatma Gandhi, líder hindu que pregava a não-violência nos embates. Achava possível a Reforma Agrária sem violência.
E foi assim que com ele convivi por alguns meses quando a luta por Alagamar chegou um impasse: de um lado o aparato policial ainda embalado pela truculência e arbitrariedades de uma ditadura que estava no fim. Do outro, centenas de famílias em luta pela desapropriação de uma fazenda – a Grande Alagamar.
Se Gandhi, um hindu estudioso dos ensinamentos do Cristo, achava possível libertar a Índia do jugo britânico mantendo uma humildade intransigente e amor ao próximo, mesmo que o próximo fosse um inglês opressor, Dom José Maria Pires estava convencido e convenceu os camponeses paraibanos da possibilidade de acesso a terra enfrentando as adversidades e brutalidades de forma não-violenta – o método hinduísta.
Num certo dia de 1978, de muita tensão, intimidação, eis que centenas de camponeses amanheceram em frente do Palácio da Redenção, onde seria recebido o ditador da época, o general Ernesto Geisel. De cima do palanque armado pelos governantes do estado para festejá-lo, o general assistiu e conferiu a força da luta camponesa, tal como pregava Dom José. Sem violência.
De volta a Brasília, no dia seguinte, o general decretou a desapropriação de 2 mil hectares de terras, apenas um décimo da área total para o assentamento de 80 famílias. Foi a vitória parcial da não-violência em um ano que ainda era de chumbo.
A luta camponesa por Alagamar teve um capítulo impossível no Brasil de hoje, que vive tempos em que poucos falam em luta quando a Nação já foi vencida. Foi o capítulo da Cantata para Alagamar.
O inimaginável foi possível na luta de apoio aos camponeses. Dom José, um bispo cristão; o professor Alberto Kaplan, um músico e regente judeu e Waldemar José Solhas, um escritor ateu convicto, tornaram possível uma obra de arte que virou disco, após apresentações em igrejas, pois proibida em teatros ou outros ambientes públicos. E ainda assim apresentada sob muita pressão policial onde quer que fosse.
A Cantata para Alagamar, escrita e cantada em Português, mas algumas de suas apresentações foram acompanhadas por plateias ecléticas em Olinda e Juazeiro da Bahia com folhetos traduzidos para o Alemão, Inglês e Francês.
Era comovedora a convivência com Dom José nos ensaios, viagens e apresentações. Sua humildade transparecia a inocência dos santos. Sua sabedoria ecumênica se mostrou vitoriosa. Embora mineiro de nascimento, o País conheceu e amou Dom José Maria Pires como se paraibano fosse.
Seu legado transcende tudo que se professa hoje, em que vivemos dias de insegurança e derrotas sucessivas e incertezas num futuro sombrio que já começou.
– Seu nome levava Maria.
– Pela intercessão de Dom José, um Brasil feliz ainda é possível!
João Costa (Foto) – Especial para o Turismo em Foco

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