Economia criativa resiste à crise

Paraíba

O que a Netflix e um artista de rua têm em comum? Aparentemente nada. No entanto, ambos podem ser encaixados numa única categoria conceitual: economia criativa – espaço onde acontecem interações entre cultura, economia e tecnologia. Atualmente, é uma tendência, principalmente para quem quer fugir dos modos tradicionais de fazer economia. Na Paraíba, de acordo com estimativa do Sebrae, são realizadas mais de 150 atividades criativas com foco na produção associada ao turismo em 19 municípios.
A economia criativa compreende quatro grandes áreas de atuação: Consumo, Cultura, Mídias e Tecnologia. De acordo com o Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil 2016, realizado pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Sistema Firjan), a Paraíba tinha 7.310 profissionais formais que trabalhavam na indústria criativa em 2015, com remuneração média de R$ 3.487. A participação dos empregados criativos no total de empregados do estado foi de 1,1% no período, um aumento de 0,1 ponto percentual em relação ao levantamento de 2013.
Por segmento, a Paraíba tem muito mais empregados na área de consumo. Em 2015, eram 3.196 trabalhadores, um crescimento de 4,6% em relação a 2013. Dessa forma, a participação dos profissionais do Consumo na indústria criativa paraibana foi de 43,7%. Por sua vez, a média salarial no período foi de R$ 4.370, uma queda de 4% em relação a 2013, quando o salário médio pago era de R$ 4.554.
Já na área criativa da Cultura, a Paraíba tinha 1.247 pessoas empregadas em 2015, um aumento de 31,3% em relação a 2013. O mapeamento também apontou que em termos relativos, Paraíba (17,1%) e Alagoas (16,2%) têm participações da Cultura maiores do que duas vezes a representação média nacional (7,8%). Em relação ao salário, a média foi de R$ 1.405 em 2015, mas o estado registrou a segunda pior remuneração no segmento do país, perdendo apenas para o Piauí (R$ 1.302).
No segmento de Mídias, que inclui o editorial e o audiovisual, a Paraíba empregou 1.375 profissionais em 2015 ante 1.351 em 2013 – incremento de apenas 1,8%. Por seu turno, a média salarial aumentou 3,2% no segmento, passando de R$ 1.961 em 2013 para R$ 2.024 em 2015, de acordo com o Sistema Firjan. A participação das Mídias na indústria criativa paraibana é de 18,8%.
A Tecnologia, embora tenha uma participação relativamente alta na indústria criativa do estado (20,4%), ficou em último lugar no país em termos de participação. Entre 2013 e 2015, o aumento no número de profissionais foi de 13,3%, passando de 1.317 contratados para 1.492. No entanto, a média salarial caiu 1,8%, passando de R$ 4.772 em 2013 para R$ 4.684 em 2015.
Menor impacto na crise Sob a ótica da produção, conforme o levantamento da Firjan, a área criativa se mostrou menos impactada ante o cenário econômico adverso do período 2013-2015, quando comparada à totalidade da economia nacional. A participação do PIB Criativo no PIB Brasileiro cresceu de 2,56% para 2,64%, mantendo a tendência observada desde meados da década passada. Como resultado, a área criativa foi responsável por gerar uma riqueza de R$ 155,6 bilhões para a economia brasileira no último ano.
Em 2015, o Brasil tinha 851,2 mil profissionais criativos formalmente empregados, frente aos 850,4 mil, registrados em 2013. No mesmo período, foram extintos 900 mil postos de trabalho na economia brasileira de modo geral, o que representa redução de 1,8% no estoque total de trabalhadores formais.
No período de 2013 a 2015, determinados profissionais se destacaram por terem sido muito procurados pelo mercado. Entre as profissões criativas que mais cresceram no período, algumas estão diretamente relacionadas à agregação de valor e valorização da experiência do consumidor: analista de mercado (+5.959), chefe de cozinha (+4.060), visual merchandiser (+1.751), analista de negócios (+1.561) e designer de moda (+865).
Juntas, tais profissões geraram mais de 14 mil novos postos de trabalho, número ainda mais eloquente diante do cenário de encerramento de quase 900 mil postos no total do mercado de trabalho e que reafirma a tendência de olhar para o consumidor como ainda mais estratégica em momento de crise. A tecnologia da informação e comunicação (TIC) – com o aumento de 4.626 postos de gerentes, 2.057 de programadores e 976 de engenheiros – também reforça seu importante papel na geração de novos produtos e ampliação do conhecimento do consumidor.
Mas, o que é economia criativa? A gestora de Turismo do Sebrae Paraíba, Regina Amorim, fez a seguinte analogia: enquanto a economia tradicional pode ser considerada da escassez, a criativa seria a da abundância. “O recurso principal é a criatividade das pessoas, que é inesgotável, ilimitada e contribui para o desenvolvimento cultural, social e econômico. Enfim, todo produto tradicional que podemos agregar valor com a cultura e a criatividade, e o mercado compra, é economia criativa”, resumiu.
Dessa forma, afirmou que os produtos criativos são consumidos diariamente, seja no vestuário, serviços – incluindo os digitais – ou lazer e entretenimento. “Na Paraíba, é uma tendência que está crescendo cada vez mais, principalmente com o turismo de experiência. A economia criativa é quando se coloca a criatividade à frente do capital. Hoje, temos vários pequenos negócios construídos a partir de um sonho sem necessariamente ter um grande investimento”, disse Amorim.
Como exemplo, a gestora contou a história da Casa do Doce, que fica em Areia. “Ela é de taipa, com telhado de palha, mas não era para ser assim. Enquanto a construção da cozinha era feita, elas fizeram isso por causa da poeira. Mas, o turista gostou tanto que elas deixaram assim e a casa ficou mais original e autêntica. Além disso, manteve a conexão com o que é mais presente na região, reforçando a regionalidade”, frisou Regina Amorim.
Municípios criativos
De acordo com estimativa do Sebrae Paraíba, o estado possui 19 municípios onde é possível encontrar iniciativas ligadas à economia criativa, mas com foco no turismo. São eles: Areia, Bananeiras, Conde, Pitimbu, Lucena, Cabedelo, Alagoa Grande, Pilões, Remígio, Solânea, Guarabira, Ingá, Cabaceiras, Boqueirão, Monteiro, João Pessoa, Campina Grande, Mamanguape e Marcação.
“É importante ter a vinculação com território, conhecer a história do lugar, das pessoas, as crenças, valores, saberes e fazeres. Em Remígio, por exemplo, há muitos jovens interessados em música, então, podia ser a cidade criativa da música. Areia, por sua vez, poderia ser a cidade criativa das artes cênicas, enquanto Bananeiras tem uma gastronomia muito forte. Ou seja, é importante trabalhar com o que é mais forte naquela região”, explicou Regina Amorim.
Conforme Amorim, estudos apontam que 2050 será o ano da economia colaborativa. “Ela atingirá o seu ápice e se estabelecerá como o principal modelo econômico na maior parte do mundo, ou seja, a economia tradicional baseada na escassez dará lugar à economia em abundância, mais focada na criatividade, que é um recurso ilimitado. A economia colaborativa é um fenômeno que tem importante repercussão no turismo”, disse.
Um grande aliado da economia colaborativa são as plataformas digitais, que compreendem as áreas de acomodação, transporte, alimentação e atrações culturais. Como exemplos de plataformas que se destacam nestes segmentos, Amorim citou AirBNB, Uber, EatWith, TripAdvisor e Booking.
“A economia criativa é uma grande alternativa diante da atual crise porque trabalha com pessoas, conhecimento, cultura, diversidade e inovação. Pode ser um produto, um serviço ou um processo. Hoje é mais fácil desenvolver um negócio por causa dos avanços na tecnologia da informação. Embora o mercado seja competitivo, a economia criativa é a grande saída para quem quer estar no mercado e se diferenciar”, resumiu a gestora do Sebrae.

Dom Quixote literário faz sucesso em Remígio Desde o ano passado, conhecer a cidade de Remígio tornou-se uma experiência bastante inusitada, principalmente para quem gostar de literatura. O ator Thiago Rodrigues criou o personagem Dom Quixote literário como produto da economia criativa depois de uma consultoria ministrada pelo Sebrae. “A ideia era justamente alavancar o potencial turístico e cultural em Remígio e o personagem se tornou um produto do brejo. Já passei por cidades como Pilões, Areia e Bananeiras, inclusive com outros personagens”, contou.
O personagem é inspirado no personagem Dom Quixote de La Mancha, do escritor espanhol Miguel de Cervantes, conhecido por ser emblemático. “Ele é um louco sonhador e quis utilizar para fazer o personagem. Na primeira vez em que me vesti, o personagem ganhou uma dimensão gigantesca. O que faço é receber os turistas contando a história da cidade de forma poética. O que mais me emociona é que ele serviu como inspiração para outras pessoas de outros locais criarem personagens com base na economia criativa”, afirmou.
Outro aspecto que se tornou um diferencial do ator é que a roupa do personagem é toda feita de material reciclado. “Ela tem pano de rede, a armadura é feita de esteira e a parte de trás tem fronha. A roupa foi montada por um amigo meu que é artista plástico. Fico feliz porque a arte deve ser compartilhada e não pode ficar presa a nada. É igual a passarinho, a gaiola deve estar sempre aberta para voar quando quiser”, contou.
O Dom Quixote literário se apresenta a cada 15 dias, em média, mediante contratação de pacote turístico. “Tenho uma página no Facebook e também há o meu contato num catálogo de produtos turísticos do Sebrae e no da PBTur. Mas, por incrível que pareça, muitos ouvem sobre mim e entram em contato. Ou seja, o boca a boca é muito mais eficiente”, disse.
Além do personagem turístico, o ator integra um grupo profissional e interdisciplinar chamado Frente Trovadora. “Fazemos um sarau poético musical em escolas públicas de diversas cidades. Durante três dias, fazemos uma oficina de literatura que incentiva a leitura de poetas locais e, ao final da oficina, realizamos um grande sarau envolvendo toda a escola. São cinco professores que lecionam Filosofia, Artes, Literatura, Dança e Música. Já estamos nesse projeto ativamente há três anos e é riquíssimo porque é pedagógico e educacional”, comentou Thiago Rodrigues.
Dupla de jornalistas se reinventa Diante de um mercado bastante competitivo para os profissionais das mídias, a palavra reinvenção é praticamente um mantra. Foi com a proposta de criar conteúdos diferentes na plataforma digital que duas jornalistas deram luz ao projeto Grid Comunicação. “Estamos vivenciando uma grande crise econômica no país e não podíamos ficar paradas. Por isso, resolvemos unir força para trabalhar com uma área especifica de comunicação, pois achamos que as redes sociais são áreas abrangentes.  A nossa proposta é que as empresas e pessoas usem melhor as redes sociais, porque elas são uma poderosa ferramenta nos dias de hoje para atrair clientes e fidelizar marcar”, contou a jornalista Cibelly Correia.
Por usarem a criatividade e o capital intelectual como matéria prima, a dupla se identifica como integrantes da economia criativa. “Mas o que é ser criativo? O que vamos fazer de criativo? Vários questionamentos surgiram e ainda surgem todos os dias, principalmente porque somos jornalistas e não profissionais de marketing, apesar de as duas áreas serem bem próximas. Por isso, pensamos em trabalhar a criatividade e humor no conteúdo e mostrar novos olhares para uma mesma situação como diferencial do nosso trabalho. Queremos que nossos conteúdos sejam inteligentes, mais leves e que possam criar identificação com o público. Em razão disso, é necessário sempre se reinventar”, afirmou Gilmara Dias.
Para as empreendedoras, um dos maiores desafios nesse projeto é justamente a inovação. “Acompanhar as mudanças, tanto tecnológicas quanto de informação, atrair clientes, fazer um trabalho de credibilidade e com boa visibilidade no meio de tantos profissionais. Acreditamos que é importante, acima de tudo, buscar qualificação profissional em diversas áreas do conhecimento e procurar sempre estar bem informada”, disse Correia.
Exemplos
Passeio de Carros Antigos no Centro Histórico de João Pessoa- Ateliê de Guariguazi, que fica em João Pessoa
Caiçara cultural de Lucena, que é um Memorial da Pesca Artesanal- Personagem Zé Curió, de Solânea
Restaurante Vó Maria, em Areia, com o pôr-do-sol de Maria
Celina Modesto – Jornal Correio da Paraíba

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