Quadrilhando corre o risco de acabar por falta de apoio e integração

Destaque Paraíba
Anúncios

Há três anos, as quadrilhas juninas de Campina Grande visitaram a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), buscando intercâmbio entre os dois mais famosos e reconhecidos festejos brasileiros – juninos e samba -, no Rio de Janeiro.
Conheceram todo o processo de criação do evento carioca e, acima de tudo, como empreender tendo como pano de fundo as apresentações das quadrilhas juninas. A comitiva de Campina Grande foi levada pelo Sebrae da Paraíba, com o objetivo de fomentar esse intercâmbio e buscar alternativas financeiras para os quadrilheiros.
Desse encontro surgiu a proposta da criação do projeto Quadrilhando, que foi arrebatador em 2015. Com apoio da Federação das Indústrias da Paraíba, que cedeu um amplo espaço, onde foi construída uma arena para a apresentação das juninas, e criado um tipo de feira com comidas típicas e comercialização de produtos alusivos às quadrilhas juninas, como roupas, adereços, entre outros, o projeto foi um tremendo sucesso.
O Quadrilhando, então, se transformou em um case de sucesso, e o presidente da Associação das Quadrilhas Juninas de Campina Grande, Lima Filho, passou a percorrer o Brasil apresentando o projeto, interpretado pelo Virgolima, personagem criado por ele e bastante performático.
Na época da visita,  presidente da Liesa, Jorge Castanheira, destacou a necessidade de integração entre a parte artística e a comercial, em reportagem veiculada no site da Agência Brasil. “Porque eles são muito carentes de recursos. Cada um faz a sua quadrilha, mas é o próprio grupo que banca. Eles têm apoio pequeno do governo local, não dispõem de condições de investir tanto e têm medo que esse pouco apoio inviabilize o futuro das apresentações”.
Castanheira observou que as quadrilhas em Campina Grande não cobram ingresso em sua área de apresentação e que não há arquibancadas, como no Sambódromo do Rio de Janeiro, que possam destacar peculiaridades para o público que assiste às apresentações, o que é um fator negativo. “Eles têm que ter uma arena em que as quadrilhas se apresentem e consigam ser vistas por um número maior de pessoas e por um período maior. É questão de aprimoramento.”
Castanheira afirmou ainda que para o patamar de investimentos que o carnaval exige, a venda de ingressos não suporta os gastos das escolas, que têm de buscar outros meios, entre os quais patrocínios, para compensar as despesas feitas para aprimorar o espetáculo a cada ano.

Se no primeiro ano o Quadrilhando contou com o forte apoio da Fiep, no ano seguinte o mesmo não aconteceu. Houve muita dificuldade de encontrar apoios, tanto assim, que o espaço conseguido no Parque do Povo praticamente escondeu os quadrilheiros e praticamente não houve divulgação desse produto turístico. Era visto apenas por pessoas que passavam pelo local.
Lima Filho reconhece que o projeto está respirando por aparelho e que corre o sério risco de não ter continuidade. “Corre sim. Apoio já não houve ano passado. Em 2017 foi realizada uma parceria com o projeto Vila Junina e realizamos os dois juntos. Para este ano ainda estamos negociando um local para a realização dos dois eventos”, disse ele.
Durante a visita ao sambódromo, Castanheira disse que os dirigentes do carnaval carioca poderiam ajudar os de Campina Grande na visão de como empreender o espetáculo de forma mais profissional. “A gente entende que o esforço coletivo para se apresentar, seja do ponto de vista de uma quadrilha de festa junina ou das escolas de samba em várias cidades, vai dar o norte para o engrandecimento da cultura, como instrumento de identificação da cultura local e regional”.
Aí, então, apareceu um dos maiores motivos para o risco de descontinuidade do Quadrilhando. Afora a falta de apoio e local para se apresentar, Lima Filho lamenta a falta de integração dos dirigentes das quadrilhas juninas de Campina Grande ao projeto.
“A experiência foi muito enriquecedora e foi através dela que surgiu o Quadrilhando. mas, como o Quadrilhando é um projeto de trabalho coletivo, ele precisa ser auto sustentável. Porque o diretor de quadrilha se prepara o ano inteiro para fazer a sua junina e participar do São João. Fica inviável ele fazer sua junina, cumprir sua jornada de trabalho no seu emprego de dia, se apresentar à noite e ainda fazer o projeto funcionar”, pontua Lima Filho.
“Eles vão dançar e o projeto fica a cargo da diretoria da associação, que sozinha não consegue levar à frente um projeto tão grandioso sem contratar pessoas para trabalhar. O projeto é maravilhoso, mas precisa de uma gestão auto sustentável. E quando buscamos projeto ele necessita de um tempo de existência de no mínimo três anos para pleitear alguns incentivos”, enfatizou o dirigente.
Esse, então, é o terceiro ano e, se não emplacar, fatalmente deixará de existir em 2019. Lamentável.
Fábio Cardoso – Fotos: Beth Espínola